“Se és Filho de Deus, desce da cruz.” (Mateus 27.40b)
A mensagem da cruz, ao longo dos séculos, tem despertado todo tipo de reação, desfavorável ou favorável. Para o filósofo Nietzsche, por exemplo, a proposta da cruz é o maior crime contra a humanidade, uma vez que impede o ser humano de explorar e desenvolver todo o seu potencial (vontade de potência)censurando-o e ameaçando-o; prejudicando, com isso, o avanço da ciência, das artes, enfim: do que ele chama de espírito livre ou Übermensch (do alemão: super humano; homem superior; super homem). Entretanto, para o apóstolo Paulo, a cruz é escândalo e loucura para quem não entende como a “morte” de Deus, ou do “super homem”, pode servir de parâmetro para inspiração e desenvolvimento da humanidade. O fato é que a cruz de Cristo, por si só, cria um paradoxo de cunho espiritual que tem como objetivo fundamental, revelar o coração de quem para ela olha.
A frase: “Se és Filho de Deus, desce da cruz.”, esclarece muito bem o dilema, pois é aparentemente ilógico tal paradoxo! Como pode ser Filho de Deus e ao mesmo tempo não ter poder para descer da cruz? Como a cruz pode se tornar exemplo para a superação do ser humano? “O homem superior, o Messias, não pode acabar assim: vencido, derrotado, impedido de toda sua vontade de potência. Não, esse modelo é fraco; só seria um modelo adequado se descesse da cruz, se a cruz não fosse capaz de aprisioná-lo, mostrando, assim, todo o seu poder!” (exclamariam os sacerdotes que crucificaram Jesus e, por incrível que pareça, Nietzsche também). “Os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria, mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gregos.” (exclama o apóstolo Paulo e todas as gerações de cristãos – I Coríntios 1.22).
Como a cruz pode ser exemplo para a superação do ser humano?
Antes de qualquer coisa, é imprescindível enfatizar que o objetivo primordial da cruz não é a superação, mas a salvação do ser humano; e salvação no sentido mais supremo: libertando-o dos seus pecados e reconciliando-o com Deus. Não existe possibilidade de superação sem esses dois pré-requisitos; pois o pecado escraviza, estagna e empobrece a alma humana; enquanto Deus é a fonte de toda inspiração, justiça, sabedoria, ciência, dom e talento que sejam bons e dignos! “Toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” (Tiago 1.17). Logo, salvação precede superação. Sem salvação é impossível superação.
Sendo assim, ao permanecer na cruz, Jesus Cristo mostrou seu poder: o amor! O amor, sem sombra de dúvidas, é a mola propulsora de toda e qualquer real superação; sabendo disso, a encarnação e crucificação de Jesus Cristo foi o maior ato de amor que alguém já realizou, pois Ele nos ensinou que a maior superação é evidenciada quando, voluntariamente, nossa vida, dons e talentos são usados incondicionalmente para a salvação e superação dos outros; sendo este ato, nossa própria superação. Preferindo o homem que a si próprio, Jesus Cristo proporcionou condições inigualáveis para que a humanidade atingisse o ápice de seus dons e talentos, isenta de todo tipo de vício alienante.
Ainda bem que o Senhor Jesus Cristo não aceitou a afronta daqueles espíritos escravizados que em sua ignorância gritavam: “Se és Filho de Deus, desce da cruz.”!
Disse Ruy Barbosa: “Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser, e ter que entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente, a derrota das virtudes pelos vícios,…” (trecho da poesia Sinto Vergonha de Mim). Essa poesia ilustra bem que não é suficiente desenvolver os potenciais apenas, mas desenvolvê-los com virtude e dignidade! A mensagem da cruz conduz o ser humano a libertar-se de tudo o que o impede de explorar e desenvolver seus potenciais com virtude e dignidade, ao restaurar-lhe o relacionamento com Deus (a suprema fonte de inspiração e justiça) e libertar-lhe da escravidão do pecado, ou seja: toda espécie de vício que torna medíocre qualquer talento e compromete a saúde das próximas gerações.
Cristão, não abandone a mensagem da cruz, mas viva-a diária e intensamente para sua própria superação, servindo de inspiração para que outros desejem e façam o mesmo, contribuindo para um futuro verdadeiramente digno, justo e feliz.
“Então disse a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.” (Lucas 9.23).
Rev. Carlos André.